RORAISUL ENTREVISTA: Telmário Mota

“O Governo de Roraima está perdido e não disse a que veio”. “A governadora Suely Campos transformou o estado numa espécie de capitania hereditária”. “Forças políticas influentes usam sua capacidade contra o desenvolvimento do Estado de Roraima”. “Servidores públicos estaduais pressionam os empresários roraimenses por vantagens ilegais”. “O governo do presidente Temer é o carrasco dos pobres”. “Ciro Gomes é o nome mais preparado para presidir o Brasil”. “Lula está pagando o preço por ter se envolvido com a elite brasileira que o corrompeu”. Esta enxurrada de frases polêmicas saiu da boca de um só personagem político de Roraima, igualmente polêmico: o senador Telmário Mota (PTB).

Numa entrevista exclusiva ao Jornal Roraisul, Telmário faz um balanço da sua história política, critica sem dó nem piedade os desacertos da governadora Suely Campos (Progressistas) e fala da falta do planejamento necessário para que o estado possa alcançar o tão sonhado desenvolvimento. “É preciso fazer um planejamento e chamar a sociedade civil organizada para dizer qual é o rumo que ela quer para Roraima. A partir daí se pode dar início à reconstrução do estado. É fundamental fazer isso”, diz o senador petebista.

Telmário defende ainda a necessidade de um grande pacto que envolva todos os poderes do estado para fazer cortes, ajustar gastos e economizar recursos para serem investidos nas áreas prioritárias. Ele defende o orçamento participativo e a divisão do estado em territórios ou zonas administrativas, agrupando os municípios por afinidade e vocação econômica, para que se possa pensar em políticas regionalizadas de desenvolvimento.

A migração venezuelana é outro assunto que preocupa Telmário. Ele diz ter sido o primeiro parlamentar de Roraima a avisar as autoridades federais sobre a gravidade do problema migratório. Afirma que ninguém lhe deu ouvidos e, por isso, a situação chegou aonde chegou. Confira, abaixo, a polêmica entrevista com o político que não tem papas na língua.

 

JORNAL RORAISUL – Senador, para situar nossos leitores, vamos contar de forma resumida um pouco da sua história política em Roraima?

 

TELMÁRIO MOTA – Eu entrei na política meio que por acaso. Sempre gostei mais da parte tecnocrática, tanto assim que em minha carreira no Bradesco eu fui de contínuo até chegar ao cargo de gerente. Entrei na empresa com 17 anos e saí com 34. Depois eu fui para a área de auditoria, trabalhando como inspetor, na auditoria interna do banco. Em Roraima, trabalhei no Tribunal de Contas do Estado (TCE), onde ajudei a implantar o setor de controle externo. Então, eu sempre trabalhei nessa área mais burocrática tanto na iniciativa privada quanto no serviço público. Depois, nós tivemos a eleição da Suzete (esposa de Telmário), que enfrentou aquele problema com seu nome envolvido no “caso gafanhotos” e nós entramos num acordo em que ela iria responder a tudo aquilo sem se esconder atrás de um mandato e sem buscar foro privilegiado. Nós entendíamos que ela era inocente em toda aquela história e por isso ela nunca se escondeu atrás de nenhum mandato. Posteriormente, eu apoiei o Hiperion Oliveira na eleição para prefeito de Pacaraima. Ele também teve problemas e não prosperou. O Rodolfo Pereira e o Augusto Botelho, que faziam parte do meu grupo, também se afastaram da política. Aí foi quando eu decidi disputar uma vaga na Câmara Municipal de Boa Vista, como vereador. Consegui 700 e poucos votos e fiquei na suplência do então vereador Ivo Som, que depois se elegeu deputado estadual e eu entrei como suplente. Em seguida, disputei a reeleição, obtendo três vezes o número de votos que tive da primeira vez e fui o mais votado da coligação do então prefeito Iradilson Sampaio e o terceiro vereador mais votado no geral. De lá para cá eu comecei a fazer um trabalho olhando muito mais às necessidades das pessoas carentes. Depois, disputei eleição para Senado e fiquei em quarto lugar com 13% dos votos. Em seguida, em 2012, me candidatei a prefeito, ficando com 22% dos votos. Então, comecei a construir minha candidatura para o Senado novamente. Foi quando eu percebi que poderia gritar as dores dos meus eleitores, as dores dos mais necessitados e consegui assim 42% dos votos na eleição para o Senado em 2014.

 

JORNAL RORAISUL – Gostaria que o senhor fizesse um breve balanço desses seus três anos como senador. Como tem sido a experiência? Qual o aprendizado?

 

TELMÁRIO MOTA – Esses meus três anos como senador têm sido uma experiência extraordinária, ímpar. Já nos meus dois primeiros anos aqui no Senado eu fiz parte de 17 comissões, aquelas mais importantes da Casa. Fui presidente de CPI, fui relator do processo que cassou o mandato do senador Delcídio do Amaral, de forma que fui eleito pelo Atlas Político como o melhor senador de Roraima, o terceiro melhor do Norte e o sexto melhor do Brasil.

Mas, como eu fui líder do prefeito Iradilson na Câmara Municipal de Boa Vista durante todo o meu mandato, eu já cheguei no Senado com alguma experiência, com alguma bagagem, ainda que numa escala menor. Chegando aqui, nós éramos seis senadores do PDT e eu fui eleito o vice-líder da nossa bancada. Em quatro meses eu já era vice-líder do governo. Eu aproveitei essa conjuntura positiva, como vice-líder do governo, e consegui tirar aquela ameaça de criação do Parque do Lavrado em Roraima e contribui para erradicar a febre aftosa que assolava nosso estado há 50 anos. Essa questão do Parque do Lavrado era um entrave muito grande para Roraima e trazia insegurança jurídica. Com relação à febre aftosa, só estavam em situação de risco os estados do Amazonas, Roraima e Amapá. Fizemos um trabalho político muito forte junto com a então ministra da Agricultura e Pecuária, Kátia Abreu, e com a presidente Dilma Rousseff. Assim, conseguimos tirar nosso estado da zona vermelha da febre aftosa com vacinação. A mosca da carambola foi outro ponto no qual nós trabalhamos muito, pois essa praga estava dando prejuízos de R$ 20 milhões a R$ 30 milhões por ano aos nossos produtores. Infelizmente, já temos cinco municípios assolados pela mosca da carambola: Bonfim, Normandia, Uiramutã, Pacaraima e Amajari. O extremo norte do nosso estado está todo prejudicado pela mosca da carambola, um problema que daria para resolver com R$ 10 milhões. Esse é o valor que custa um aparelho que faz a esterilização das frutas acometidas por esse parasita, possibilitando exportar as frutas para qualquer lugar. Nesses três anos de mandato, nós alocamos para Roraima mais de R$ 70 milhões. Eu sempre lutei para que pudéssemos resolver os gargalos que atrasam o desenvolvimento do nosso estado. Esse tem sido o meu lema como senador.

 

RORAISUL – Senador Telmário, Roraima vive um momento político e econômico delicado. Como será possível tirar Roraima dessa situação de crise e de estagnação?

 

TELMÁRIO MOTA – O Estado de Roraima, nesse momento de sua história, precisa dar um cavalo de pau para corrigir o seu rumo, principalmente no que diz respeito à sua economia. Nosso estado precisa ser repensado como um todo. A primeira coisa a se fazer é priorizar o desenvolvimento do nosso estado. Nós temos que sair da economia do contracheque e o caminho que nós temos para isso é investir no setor primário. Nós temos no nosso entorno – somando as economias da Venezuela, Guyana, Manaus e Boa Vista – temos um PIB maior que o de São Paulo, que tem 30 milhões de habitantes. Nós só temos em Roraima 500 mil habitantes e importamos até a farinha que comemos. Ninguém está produzindo praticamente nada em Roraima. Aproximadamente 80% dos recursos que entram no estado são oriundos do Governo Federal. Nosso PIB é muito baixo e isso tem que mudar. Nós temos que mudar a nossa matriz econômica e para isso acontecer é preciso tomar algumas decisões. E uma dessas decisões é combater sistematicamente a corrupção. Temos ainda que combater efetivamente a sonegação. É preciso ter diretrizes. Quem autoriza essas auditorias para combater a sonegação é o secretário da Fazenda ou o governador. É preciso combater a propina. Tem muitos servidores sem escrúpulos que ficam pressionando o comércio para ver se consegue algum benefício ilegal. É preciso combater esse tipo de conduta de forma efetiva. É preciso ser racional com os gastos públicos. É urgente fazer contenção daquelas despesas variáveis. Precisamos de transparência total na administração, com uma auditoria eficiente. Precisamos instituir uma ouvidoria central com ouvidorias periféricas para que haja transparência na administração. Hoje, quem pauta o governo são os meios de comunicação da oposição. Quem tem que pautar o governo é o povo. O governo é o carro e o povo é o motorista. E quem diz a direção que o carro deve seguir é o motorista. O orçamento do estado deve ser participativo. Um governo inteligente dividiria Roraima em três territórios ou zonas administrativas: o primeiro, o Sul, seria formado pelos municípios de Caroebe, Baliza, São Luiz, Rorainópolis e Caracaraí; o segundo território, o do Centro, seria composto pelos municípios de Mucajaí, Iracema, Cantá e Alto Alegre; e o Norte teria os municípios de Amajari, Pacaraima, Uiramutã, Normandia e Bonfim. Assim, junto com os gestores, legisladores e sociedade destes municípios, seria discutida a criação de um fundo de desenvolvimento sustentável para cada território desse. Esse fundo seria composto por recursos do Governo Federal, governo estadual, das emendas parlamentares e dos municípios. Os municípios de cada território desses estabeleceria suas prioridades porque eles têm vocações e aptidões em comum. Isso facilitaria para colocar esses municípios na marcha do desenvolvimento. Ainda sobre o desenvolvimento: é preciso chamar todos os poderes de Roraima para um pacto. A Assembleia Legislativa de Roraima é a mais cara do mundo e pertence ao estado mais pobre do Brasil. Então tem que chamar Ministério Público, Poder Judiciário, Assembleia Legislativa e Tribunal de Contas para grande um pacto. É preciso fazer um enxugamento. É preciso dar prioridade à geração de empregos, primando também pela qualidade no serviço público. Faz-se necessário ainda um trabalho conjunto do Executivo e do Legislativo para resolver o caos energético de Roraima. Se não for possível resolver a questão da obra do Linhão de Tucuruí, é preciso se pensar na geração de energia renovável, limpa. Roraima tem muito potencial para isso. É isso que nós temos que fazer para que Roraima possa atingir o desenvolvimento.

 

RORAISUL – Na sua opinião, quais sãos os maiores problemas do Estado de Roraima hoje e quais seriam os caminhos para resolvê-los?

 

TELMÁRIO – Em Roraima falta um governo que planeje com visão de futuro. Eu não falo de um planejamento de governo, mas um planejamento de estado. Precisamos planejar Roraima para os próximos 20 anos, para o longo prazo. Nesse tempo vai se fazendo apenas os ajustes necessários. Hoje, o maior entrave de Roraima é o problema energético. Todas as forças políticas do estado têm que estar unidas para resolver a questão energética do estado. É preciso fazer o cadastramento ambiental rural das propriedades rurais. Temos que alavancar nossa economia. Precisamos fortalecer as comunidades indígenas e inseri-las no processo econômico. Não se pode iniciar um trabalho sem saber aonde se quer chegar. É preciso saber o que se quer para Roraima. A governadora Suely [Campos] assumiu o governo sem saber para que veio. Ela pegou o governo estadual e fez dele uma empresa doméstica, dividiu a administração com seus familiares, transformou o estado numa espécie capitania hereditária. Então, é preciso primeiro fazer um planejamento e chamar a sociedade civil organizada para dizer qual é o rumo que ela quer para Roraima. A partir daí se pode dar início à reconstrução do estado. É fundamental fazer isso.

 

RORAISUL – Qual é o caminho para se alcançar o desenvolvimento de Roraima? E porque até agora se falou tanto em projetos de desenvolvimento, mas pouco foi feito efetivamente?

 

TELMÁRIO – Temos que estabelecer o que queremos efetivamente para o nosso estado. Desde quando o Estado de Roraima foi implantado – exceto o primeiro governo do Neudo, quando foi feita a contratação da energia de Guri, a construção das estradas, o investimento nas escolas-padrão, a construção da ponte sobre o Rio Branco, em Caracaraí – não foi executado nenhum projeto de desenvolvimento para o nosso estado. Ottomar Pinto ainda quis fazer o projeto Passarão, mas aquilo não saiu da planilha. O único projeto executado em Roraima e que está ajudando o estado a não afundar de vez é a Área de Livre Comércio (ALC). Se h0je nós temos dois shopping centers, se temos um comércio funcionando, gerando emprego e renda e recolhendo impostos é graças à área de Livre Comércio que trouxe algumas isenções que facilitam algumas questões para o desenvolvimento do estado. Mas é preciso fortalecer a agropecuária no Estado de Roraima. Temos que fortalecer as pequenas indústrias, a agroindústria. E isso só é possível num acordo estadual, envolvendo as instituições financeiras, levando informações aos agricultores familiares, fazendo o cadastro ambiental rural, a titulação das terras, liberando as licenças declaratórias. Hoje nós temos 40 mil propriedades rurais em Roraima. Dessas, 10 mil pertencem a pessoas que têm recursos e viabilizam seus documentos. Os outras 30 mil estão aí jogados às traças, à própria sorte. A maioria é composta por agricultores familiares que não têm o cadastro ambiental rural, não têm o licenciamento declaratório, não tem o título da terra, tudo devido a uma briga política entre o INCRA, o Iteraima, o governo estadual e o Governo Federal comandado por um grupo que joga no time do quanto pior melhor. Só para eles se reelegerem. É lamentável que alguns usem a sua força política contra o desenvolvimento do nosso estado. As pessoas gostam de ver o povo de Roraima na miséria, na carência, na necessidade. Nós temos que acabar com isso.

 

RORAISUL – E quanto a políticas de desenvolvimento para o Interior de Roraima. Parece-me que os sucessivos governos têm falhado neste quesito. O que pode ser feito para levar desenvolvimento e qualidade de vida para os moradores dos municípios interioranos?

 

TELMÁRIO – Eu andei recentemente, durante dois dias, em vários municípios de Roraima, principalmente na região Norte do estado. Passei dois dias visitando municípios como Amajari e Pacaraima. E o que é que temos hoje? Temos hoje um interior abandonado. O produtor assentado não tem título, como eu falei, não tem licença declaratória, não tem cadastro ambiental rural. E por não terem essa documentação, eles também não têm acesso às linhas de crédito. O produtor rural em Roraima não tem acompanhamento técnico, enfim, está, totalmente abandonado. Isso é lamentável. O que é que está acontecendo hoje? Atualmente, 60% da população mora em Boa Vista, mas 83% mora na área urbana. Tudo isso porque a área rural está abandonada. E não é por falta de terra, não. Nós ainda temos um estoque de 2 milhões e 500 mil hectares de terra, o que é suficiente para fazer de Roraima a grande fronteira agrícola do nosso País. É, só falta de políticas públicas, mesmo. Por outro lado, se os produtores não têm os documentos necessários, também não dispõem da infraestrutura: as estradas estão destruídas, as pontes estão destruídas, falta energia de qualidade, enfim, a máquina do nosso estado deixa muito a desejar e o nosso homem do campo está entregue às baratas. É preciso dizer que o governo precisa concluir o Zoneamento Econômico Ecológico (ZEE) do estado, que é a ferramenta que vai definir as terras onde se pode produzir ou não.

 

RORAISUL – Por falar em ações de governo, como o senhor avalia, em linha gerais, o desempenho do atual governo em Roraima?

 

TELMÁRIO – Eu defino o governo assim: este é um governo sem planejamento, sem capacidade de gestão, que só fez pagar pelos erros do governo anterior. Mais nada. Esse governo não disse para que veio.

RORAISUL – Outro drama social que Roraima está vivendo desde 2016 é a migração desordenada de venezuelanos que fogem da crise humanitária em seu país. O que o senhor considera que pode ser feito para sanar esse grave problema social?

 

TELMÁRIO – Quando começou esse processo migratório da Venezuela, ainda em 2015, eu fui o primeiro parlamentar de Roraima a chamar a atenção das autoridades federais para a questão. Eu avisei que essa migração poderia crescer até chegar no patamar que está chegando hoje. Uma situação quase que incontrolável. Na época, o chanceler era o senador José Serra. Eu estive com ele, pedi providências. Fui com o ministro da Justiça. Fui com o ministro da Saúde. Todos esses ministros estiveram em Roraima e me disseram que não viram motivo para preocupação, que a estrutura do estado estava a contento, que o estado conseguiria atender à demanda. Depois que a prefeita Teresa Surita esteve em Brasília, quando se reuniu com dez ministros, e voltou a Boa Vista oferecendo salário, aluguel solidário com valores entre R$ 700 e 1.200, bolsa família, oferecendo alimentação, transporte, isso tudo acabou funcionando como um convite. A Venezuela hoje vive um problema que nós precisamos entender. O Temer só tem 6% de aprovação e ninguém o derruba. Na Venezuela o presidente Maduro tem 30% de aceitação. Conta com o apoio internacional da China, Cuba e Rússia. O apoio da China e da Rússia faz os Estados Unidos ficarem mais tímidos quanto a uma possível intervenção. Até porque a relação comercial entre a Venezuela e os Estados Unidos não sofreu abalos, porque ela gira em torno de um produto muito importante para os americanos, que é o petróleo. O estremecimento é só no campo político, fica só na falácia. Então, infelizmente, a crise da Venezuela não vai terminar agora. Hoje as pessoas estão correndo de lá devido à escassez de alimentos e de remédios e também pela falta de emprego e pelo medo de morrer. Isso faz eles virem embora para o Brasil. Agora temos um estado superlotado, recebendo quase 500 pessoas por dia. Os hospitais já estão superlotados, os postos de saúde já não têm mais capacidade para atender à demanda, as escolas tiveram um aumento considerável nas matrículas. Isso tudo criou instabilidade na segurança. Roraima não tem empregos para todo mundo. Não tem habitação. Isso nos leva a crer que a situação pode se agravar ainda mais. Para piorar a situação, o governo Temer assinou um decreto que dá celeridade no fornecimento da documentação para os migrantes o que é mais um convite para que mais venezuelanos venham para Roraima. O Governo Federal está de costas para o nosso estado.

 

RORAISUL – E a crise energética? Passou-se mais um ano sem que o problema energético de Roraima tenha sido solucionado. O que o senhor considera que tem ou pode ser feito a esse respeito?

 

TELMÁRIO – A crise energética em Roraima é também uma crise política. Assim que eu assumi meu mandato de senador e peguei a vice-liderança do governo, eu levei a Dilma duas vezes em Roraima. Nessas ocasiões, eu disse a ela que Roraima tinha quatro gargalos a serem removidos: a questão energética, a mosca da carambola, a febre aftosa e o Parque do Lavrado. No entanto, a partir do que nós temos visto nas delações da Lava Jato, todo o sistema energético brasileiro é dominado pelo MDB (ex-PMDB). O presidente da República é do MDB, o líder do governo é do MDB, [José] Sarney, [Edson] Lobão são todos envolvidos com essas termelétricas. Então, levaram essas termelétricas para Roraima e nós estamos pagando uma energia caríssima, talvez a mais cara do país. Estamos pagando uma energia sem qualidade que não dá nenhuma segurança para o desenvolvimento do estado. E nós temos condições para gerar energia limpa por meio de pequenas hidrelétricas, nós temos condições de gerar energia eólica, energia solar. Na verdade, nós temos condições para criarmos um parque de energia renovável com múltiplas alternativas, o que é uma coisa fantástica. O que está faltando é apenas vontade política. Muitos dos problemas de Roraima não são difíceis de resolver, mas é preciso ter vontade política. O governo é despreparado, desconectado. É lamentável essa situação. E ainda tem uma mão muito influente jogando contra.

 

RORAISUL – Os trabalhos legislativos deste ano estão começando no Congresso Nacional. Um dos grandes temas em debate será a Reforma da Previdência. Qual a sua opinião sobre a proposta do governo para a Previdência?

 

TELMÁRIO – Naturalmente, a Previdência, como qualquer outro programa de governo, tem que ser atualizado, precisa passar por modernização, mas nunca na proporção que está sendo proposto pelo presidente Temer. Essa história de dizer que a previdência é deficitária é uma falácia. Nós acabamos de fazer uma CPI, da qual eu fui vice-presidente, onde fizemos 31 audiências públicas e ouvimos diversos segmentos de toda a sociedade, como sindicalistas, juízes, promotores, professores, especialistas, o próprio governo… Foram ouvidas 120 pessoas e não ficou em nada constatado que a Previdência esteja mesmo deficitária. Ao contrário disso. O que ficou claro e o que estamos vendo é que este governo tem muito dinheiro. O governo Temer deu isenção de R$ 1 trilhão para as petrolíferas estrangeiras. Ele está oferecendo para os prefeitos que apoiam a reforma, R$ 3 bilhões, está deixando de cobrar das empresas que devem à previdência mais de R$ 400 bilhões. Então, toda essa história de que a Previdência está quebrada é só mais uma mentira. Esse governo tem um objetivo claro: ele trabalha para os rentistas, esses especuladores que vivem de juros, os grandes banqueiros. E não pode ser diferente. Afinal, o presidente do Banco Central é um funcionário do Banco Itaú, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, é aposentado pelo Banco de Boston e dono do Banco Original, vive de joelhos para o Banco Itaú; o ministro do Planejamento é uma indicação de um senador que está denunciado por vender medidas provisórias. O presidente da República também está denunciado por corrupção. Este é um governo que eu tacho de carrasco dos pobres.

 

RORAISUL – Ainda falando em política nacional, depois da condenação do presidente Lula parece-me que ficou um vácuo de lideranças realmente capazes de empolgar o eleitorado para a disputa da presidência da República. Como o senhor analisa o atual cenário político nacional?

 

TELMÁRIO – O ex-presidente Lula fez coisas boas. Ele fez muitos programas sociais bons para a população mais pobre do País. Porém, ele se envolveu com a elite brasileira que o corrompeu. Então, Lula está pagando o preço por aquilo que ele construiu. Agora, tirando ele do processo eleitoral, eu vejo que dos nomes que estão aí despontando como pré-candidatos, dois deles estão à altura de presidir o nosso País: o primeiro é Ciro Gomes, o homem mais preparado para ser o presidente da República hoje. Depois, temos Geraldo Alckmin e há também um terceiro, eu ia me esquecendo, é o Álvaro Dias. Esses três nomes reúnem o conhecimento e o equilíbrio de um estadista que pode tirar o Brasil dessa grande crise em que ele se encontra hoje.

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